Ele escolheu não sentir. Simples
assim, frio assim, como quem escolhe uma roupa de manhã. E ele sempre achou
isso o máximo, certo de que era muito forte e que ser completamente racional
era motivo pra medalhas. De longe eu pude ver ele atrapalhado entre os escudos,
todo aquele teatro podia convencer muita gente, mas eu sempre soube que sentir
não era uma opção e que tinha muito por baixo de toda aquela capa mal
remendada. E tinha mesmo, uma pessoa linda, eu juro. Bem, bem escondida,
trancada debaixo da cama, como aqueles monstros da infância. Acho triste, covarde
e solitário. Fraqueza demais deixar uma pessoa te matar por dentro. Ele se via
o herói de Tróia, eu via um guerreiro medroso abaixando a espada pra primeira
bandida. E, por coincidência, teste ou algum tipo de missão, sou casa pra esse
tipo de gente que se embaralha toda com essa coisa de sentir e acha mais
prático ou cômodo se bloquear. E eu, toda atrapalhada por natureza, tenho que
ficar ensinando, arrumando, resgatando, me bagunçando. Enfim, sou jogada no
campo de batalha, sem aviso, sem nem que eu perceba. Só que, instintivamente,
não sou do tipo que recua, meu ataque não é agressivo e isso, por incrível que
pareça, assusta bem mais que uma estratégia friamente calculada ou uma fuga de
mestre. Quem vive se escondendo atrás de uma máscara não suporta a ideia de
alguém descrevendo e percebendo cada gesto por trás, tudo que é tão
rigorosamente protegido e escondido. Tem gente que não quer ser resgatada e eu
sou livre demais pra viver com alguém prisioneiro. Tecnicamente, não ganhei a
batalha. Sinceramente, não fui eu que perdi.
terça-feira, março 11, 2014
segunda-feira, agosto 26, 2013
Amostra grátis de amor
Escrevo como se fosse dona da verdade,
ajo como se fosse dona do mundo, na realidade, mal sou dona de mim. Você sabia.
Ouvi teu sobrenome nada comum, dia desses. Passou um filme da gente, das tantas
vezes que tentamos combinar teu sobrenome no meio dos meus, de todas as formas
possíveis. O sobrenome até que combinou, a gente não. Engraçado, né? Você
sempre soube que a minha mania de saber de tudo, era só pra disfarçar o quanto
eu não sei de nada. Você sempre sabia quando eu percebia que tava errada e a
gente ria, porque eu nunca dava o braço a torcer. E sabia, talvez, porque você
também era assim. Aprendi contigo muitas coisas, uma delas foi a pedir
desculpas. Mesmo sem jeito, mesmo entre os dentes, mesmo aquele "Eu tô
certa, que fique claro, mas desculpa aí, fui grossa." E você sempre
desculpava, sempre, ainda que entre os dentes também. Ninguém sabia contar
piadas sem graça tão bem quanto você. Sua mania, além de me irritar e me fazer
bem, era ficar me descrevendo como se conhecesse mais que eu. E, ás vezes, eu
acho que conhecia mesmo. Por vezes eu tive que arrumar um motivo, um passado,
só pra gente se desentender um pouco, só pra tudo não ficar tão bem sempre e eu
não conseguir, depois, ficar confortável fora de nós. E, por mais louco que
pareça, a gente sempre foi do tipo que se parecia e se conhecia tanto a ponto
de nunca dar certo. Duas peças iguais num quebra-cabeça, que nunca poderiam se
encaixar. Foi assim que a gente se perdeu, tão naturalmente quanto se
encontrou. Oi, como foi seu dia?, te amo, um adeus subentendido. Tudo tão
rápido quanto sincero. Uma história dessas que independem de tempo pra ser
linda ou pra sempre. Aquele fim que não leva pedaço de ninguém, porque os dois
já sabiam desde sempre que se tratava de uma amostra grátis do amor. Amor, que
tanta gente nunca nem sentiu o cheiro, amostra já é grande demais, privilégio
demais. Um fim com carinho e frio na barriga sempre que se esbarram por aí. Sem
dor, arrependimentos, pesos ou culpas. Foi,de longe, a melhor amostra grátis
que os dois já receberam na vida. Qualidade indiscutível. Só acabou.
terça-feira, julho 30, 2013
A melhor pessoa que eu já conheci
Você acreditava em coisas bonitas,
pessoas bonitas, amor vencendo tudo. Era quase um personagem caído de um conto
de fadas e isso sempre me assustou. Tão puro, tão exposto. Mas como poderia dar certo, eu tão
tempestade, você tão brisa? Com que eu iria me irritar, se não com tuas coisas
boas em excesso? Como eu ia brigar e ter crise? Ia ser injusto todos os dias.
Você se doando e eu só recebendo. Eu tinha a sensação de que fui verificar
minha conta corrente e tinha milhões depositados. Não me pertencia, depósito
errado. Não que eu mereça menos que isso, me entenda, o dinheiro só não era
meu, não fiz nada em troca disso e nem podia fazer. Não tinha amor, pele, tinha
eu ali só porque qualquer garota teria sorte em estar ali, então eu ia ficando.
Não aguentei o peso de segurar sua felicidade, tão idealizada e merecida. Não
suportei ser a princesa paparicada, teu amor inteiro e sem cobranças. Não
aguentei ser teu sonho realizado, porque sempre me achei confusa demais pra ser
sonho de alguém. Pesadelo, talvez. Sonho é muita paz, muito você e eu não cabia
nisso tudo. Foi assim que eu fui embora da melhor pessoa que eu já conheci. E,
por mais egoísta que pareça, pensei mais nele do que em mim. Conto de fadas é
tudo que eu não acredito. Ninguém precisou se corromper, rompemos. Se tem algum
cara, que tenha passado pela minha vida, e eu desejo sinceramente tudo de
melhor nessa vida, é ele. Já o disse, acho que ele não acreditou muito e eu
entendo. Quem vê de fora ou até ele, me aponta o dedo e diz com todas as letras
que eu não dei valor e ele nunca mereceu isso. Minhas amigas apelam pro
"Eu te avisei que isso não ia dar certo", mas não abrem mão do
"ele nunca mereceu". Dei valor sim, que fique claro. O suficiente pra
deixar ele encontrar alguém melhor que eu. Percebe o tamanho disso? Eu tentei,
juro mas, na verdade, eu que nunca mereci.
domingo, junho 30, 2013
A cura não é um novo amor
Aceitar um fim é aceitar um novo
começo. Continuar numa relação onde as pessoas não mais se relacionam faz tanto
sentido quanto ir patinar porque está com fome. Você perde tempo, pessoas,
vida. Você ganha arranhões que poderiam ter sido evitados, ganha mágoas de
alguém que poderia ter sido sempre especial e só. Ninguém disse que iria ser
fácil, ninguém disse que não iria doer. O costume grita e você pensa que é o
amor ainda vivo em algum canto. Grande engano, grande perigo. Até que o costume
mude de figura, tudo é vazio, lembrança, saudade, tudo é ele. Mesmo depois do
fim, mesmo sem amor. É o velho vício de mexer na ferida, sentir fisgada só pra
não ficar sem sentir nada. E você ouve muitas fórmulas pra fazer tudo isso
passar mais rápido, muito atalho tentando driblar o tempo. Não vou dizer que
nenhum funciona, assim como não digo que algum funcione a longo prazo ou
definitivamente. Não importa quantos corpos você tenha no verão, no inverno
você sente falta da história, da alma, das manias. Vai ser ele por um bom tempo
o dono das saudades bobas, das carências mais fortes, do carinho. E não tem
fórmula mágica pra isso. Agora, se acabou, com certeza teve um bom motivo, já
deixou de ser bonito como nas lembranças preferidas, por mais difícil que seja
lembrar dos fatos por esse ângulo. E pro costume tomar uma nova forma, você tem
que usar novos moldes, sem recaídas, sem se fechar pro mundo. Você vai tentar
substituir ele por outro, assim, como quem muda de manteiga no café da manhã. E
pode dar muito certo por uns meses, depois o novo cara é só mais um anexo no
arquivo de decepções e a saudade, de algum modo estranho, nem é do cara novo.
Tantas promessas de tudo ser diferente e no fim tudo sempre tão igual. E o
vazio só aumenta, uma bola de neve. Até o dia que você acordar de manhã, se
olhar no espelho e entender que ali tem alguém inteiro e com tudo que você
precisa pra ser feliz. E esse dia, anota aí, vale mais que anos. Não se cura um
amor com um novo amor. Se cura com amor-próprio.
sexta-feira, junho 07, 2013
Escrava dos meus impulsos
Queria assumir que, no meio dessa moda de liberdade, sou escrava dos meus impulsos. Queria deixar claro que minha dificuldade em tomar decisões definitivas é culpa dessa minha escravidão. Se eu decido que é melhor o fim, só porque já deu, vamos tentar uma amizade bonita, eu decido até bater a saudade. Se eu tô com saudade de você, eu acho importante você saber disso e todo mundo sabe onde isso acaba. Tá percebendo o perigo? Eu acho mesmo que tudo que eu pense em relação a você ou um possível nós, seja dito e jogado na mesa, ainda que meio bagunçado. E lá vou eu, de volta pra lugares onde nunca cheguei a sair. Tô sempre brincando de dizer verdades por aí, sem pensar duas vezes ou pesar consequências. Sou uma tímida sem vergonha. Por que eu esconderia minhas vontades de quem faz parte do pacote? Sempre fui impulsiva além da conta e os arrependimentos pelo caminho quase sempre compensam. Aprendi, aos trancos, a não me render ao orgulho, só e sempre ao amor-próprio, que é uma derivação mais sutil e completamente justa. Quando eu resolvo, então, passar por cima dos meus impulsos quase que automáticos e, enfim, tomo uma decisão permanente, você pode ter certeza que é por amor. Amor a mim. Se eu tô contigo, de qualquer modo imaginável, você vai saber e vai saber exatamente como. Se eu for embora, não preciso tocar alarme, dar mil avisos prévios ou fazer cena de novela mexicana, batendo a porta. Você vai me ver saindo aos poucos, cruzando a porta em silêncio e vai ser a última vez que vai me ver tão de perto.
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