sexta-feira, maio 11, 2012

Jujubas


Um banco de praça, um senhor e uma jovem, cada um num canto. A jovem parece apreensiva, então o senhor pergunta: - O que te aflige?. Ela não sabia ao certo se queria falar sobre o assunto, mas poderia ser bom, gente mais velha sempre sabem o que dizer.  - Tenho medo! - Medo de que? - O amor é lindo, mas dói. Se entregar dói, gostar dói, esperar dói. Dói. No começo é maravilhoso, mas e quando eu for dele? Digo, quando ele não precisar mais me conquistar, quando ele se acostumar comigo? -O que não dói? Seguir em frente, voltar atrás, ficar parado. Nada é fácil, viver dói. Agora se acostumar com você? Se alguém já fez isso, de fato não te merecia. Uma mulher é uma caixinha de surpresas, quando você acha que já abriu a última embalagem, ainda nem começou. E são instáveis, amam, mas sempre precisam de um algo a mais, uma atenção a mais, um homem que seja mais que um namorado ou marido. Porque, uma coisa é certa, uma mulher incrível, sempre será incrível. E se quem está com ela, um dia, deixar de perceber, outros farão o que ele não faz e o amor perde o chão. O amor é nobre, sempre. Amar é uma honra, saber amar um privilégio. Seus olhos não negam seu medo misturado com cansaço, mas ainda assim, dá pra ver a esperança. E isso é lindo, posso dizer que você é um dos privilegiados. É como comprar um saco de jujubas pela primeira vez, pegar de início uma branca, não gostar e se convencer de que jujuba é ruim, sem provar as outras cores. Não é justo. - E se eu só pegar jujubas brancas? - Você colore antes de provar! Nenhuma jujuba, depois de você, é capaz de continuar sem cor. Você é encantadora, menina. E se não fizer isso por você, faça pelo mundo! Não prive as pessoas de sentirem tua paz um dia. Mesmo em conflito, você brilha. Você é o saquinho de jujubas inteiro!. A menina sorriu, aliviada. Deu uma abraço agradecido e foi embora com a certeza de ser única, com uma vontade boa de ser amor sem bloqueios outra vez e com um novo doce preferido.

terça-feira, maio 08, 2012

Dá medo, né?


É difícil acreditar em promessas, quando você tá acostumada a ouvir palavras vazias e esquecidas em pouco tempo. É difícil você pensar que dessa vez pode ser diferente, quando você lembra das outras vezes que você pensou assim e foram tão iguais. Mais cruel do que você chorar e ficar mal por alguém, é você ficar tão bem com uma pessoa que morre de medo de quando esse sorriso vai começar a doer. É como se um dispositivo mandasse alertas dizendo que não se pode ser feliz e ponto, que tudo muito bom pode ficar ruim na mesma intensidade. E sair da sua zona de conforto parece perigoso demais, só que não tem jeito, mais cedo ou mais tarde você é invadida. E começa tudo de novo, gostar e sua linha tênue entre paraíso e inferno. Dá medo, né? Dá mesmo, eu sei. Mas eu não recuo porque quando eu caí, me levantei sozinha. E nenhum medo me assusta mais, porque eu me banco, seguro o tranco do que for, sem me apoiar ou depender de ninguém. Porque por mais maravilhosa que uma companhia for e independente do bem que ela me faça, quando ela partir, ainda vou ter a mim e isso me basta. Sem choro pelos cantos, sem falta de apetite ou cabelo mal arrumado. Acho que o segredo não é saber se entregar. É saber se entregar sem se perder.

sexta-feira, maio 04, 2012

Um foda-se pro machismo


Numa sociedade idiota onde as próprias mulheres são machistas, eu nunca vou me acostumar a ouvir alguém fazer o seguinte comentário após assistir uma notícia sobre estupro "-Também, com essa roupa aí, né!" Também com essa roupa, o que? Francamente, hein. Ela podia estar com um short menor que a minha calcinha e um top-quase-sutiã, ninguém tem o direito de violentar ninguém. Não tem desculpa! Ela pode ter transado com a cidade inteira, se ela não quer fazer sexo com o Fulano, ele não pode obrigar e ponto. Vocês se prendem tanto a tamanho e o respeito que é bom, vira poeira. Um short curto não mede caráter, seu preconceito e seus rótulos imbecis que medem. Eu tenho nojo. Ainda dizem "Ué, querem homem romântico, que pague a conta? Não queimaram sutiã? Direitos iguais em tudo." Você acha isso engraçado? Vamos fazer piada sobre a Lei Áurea também! As Diretas Já, a Ditadura, outros acontecimentos históricos que deram direitos e dignidade nada mais que justa pra todos nós. Não preciso de um idiota pagando nada pra mim ou que abram a porta de um carro porque sou uma donzela indefesa. Cavalheirismo é uma qualidade, não um favor a nós, mulheres. Se você é, parabéns, se não é, paciência, não vai mudar minha vida, não sou aleijada e tenho meu próprio dinheiro. Também não sou empregada, nem obrigada a saber cozinhar, lavar, passar, pegar cerveja e me vestir de burca pra fazer ninguém feliz. Tô no século XXI, se vocês estão atrasados, eu apenas lamento. 

terça-feira, maio 01, 2012

Depois me conta?


Eu gosto de como somos dois extremos diferentes. Você muito do avesso, eu muito do lado certo. E como a gente vai melhorando um ao outro, sem perceber. Amo suas palavras sem ensaio, que saem pela boca antes de você pensar se deve dizer ou não, enquanto eu penso uma, duas, três vezes e deixo pra uma próxima. Você me enche de atenção e não me cansa. Acho que você sabe minhas medidas. É só olhar nos seus olhos que o mundo ao redor desaparece. Nunca tinha acontecido assim, tudo tão intenso desde antes de ser. A gente se encaixa e não me falta absolutamente nada quando eu tô deitada no teu peito. Tô irritantemente mulherzinha. Acredita que eu dei pra sorrir lendo suas mensagens? E releio, e torço pra ser você quando o celular vibra. Depois me conta como você consegue me encher de tudo sem me encher. Me deixar completa, sem me transbordar. Me conta o teu segredo, de me deixar o que eu nunca fui: leve. Você disse que agora que me achou, não vai me deixar fugir e que, talvez, eu fosse seu anjo. Um dia eu te conto que, mesmo sem laço, eu tô presa e anjo... é você.

sexta-feira, abril 27, 2012

Arrumei a cama


Acordei, levantei da cama, abri a cortina e deixei o sol entrar. Acordei de ilusões que eu criei quase sozinha, levantei da cama que nunca foi nossa, a luz entrou e devolveu a vida que não entrava naquele quarto há anos. Torci meu travesseiro e deixei escorrer anos de noites mal dormidas, de planos não realizados, de saudade de você. Como quem tava a tempo demais no escuro e, de repente, se depara com uma luz muito forte, me doeu os olhos, mas logo me curei. Não tive tempo de pensar no que se foi, no que não chegou a ser ou no que poderia ter sido.  Arrumei a cama, tinha visita. E perfumei o quarto, decorei, me refiz. É outono e quem diria? Deixei meu velho amor ser varrido junto com as folhas da estação. Tão clichê quanto minha espera eterna e inútil, nosso filme travado no replay, tuas desculpas sem culpa, ditas por obrigação e não pra se redimir. Deixei varrer porque não nascia flor a muito tempo, não é? Você sabe, você quem parou de regar. Sempre economizou água e o amor foi crescendo sozinho, se alimentando de mim. Mas agora tá voando pelo chão e eu tenho visita. Não me liga, por favor. Me poupe dessa reviravolta de querer tudo que eu sempre quis tanto te oferecer, só porque agora tô oferecendo pra outro. Você sempre me deixou pra depois, mas agora não tem mais depois, porque sou presente de um outro alguém. Presente em todos os sentidos, presente que você nunca chegou a abrir completamente, por falta de coragem ou interesse. Mas já não importa, porque daqui a pouco chega minha visita e eu não tenho tempo pra te explicar o que você nunca quis ouvir. Sempre fugiu e agora quer ficar? Não confio em quem não sabe o que quer. Queria o mundo e agora quer a mim, só porque arrumei a cama. Disse que te amava e você pediu pra eu não repetir, agora quer meu colo como abrigo? Não sou casa pra covardia, não tenho tempo pra gente mal resolvida, já sou peso demais pra mim. Enfim, agora me dá licença, a campainha tá tocando e eu preciso ser feliz. Tudo claro, calmo, tudo novo. Recomecei, me zerei, deixei entrar e, principalmente, sair. Você sempre quis o mundo, agora tem, sem ninguém disputando espaço. Tá achando pouco? Sempre fez questão, sempre quis tanta opção e agora, eu finalmente, te libertei, sem nunca ter te prendido. Devia estar feliz. Só me deixa também, sem bater na porta, pra não sentir o gosto de ser atendido por um outro alguém. Meu novo alguém. Fica bem. Fim.
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